TÍTULO: Alacridade

SUBTÍTULO: Vendedores de lenços!

ASPAS: “Cumprir as obrigações é dever de cada um. Mas fazer mais e melhor é opção pessoal”.

A calçada em frente a minha loja durante o período da tarde proporciona certo conforto por ser lado sombra; é comum deparar com amigos e conhecidos naquele delicioso espaço. Estava eu olhando uma nova folha do pé de palmeira que plantei na calçada da Rua São Luiz em frente à loja, e um amigo viajante perguntou-me: “Qual o segredo de tanta felicidade? Toda vez que eu o vejo, você está bem humorado, de bem com a vida”. Em tom de brincadeira, respondi: “É segredo, mas posso dar umas dicas”. Naquele momento, lembrei-me de um amigo aposentado de um banco federal, algum tempo atrás, que me fez a mesma pergunta; naquele dia, eu estava na Avenida Sampaio Vidal.

Expliquei ao meu amigo, então, que os seres humanos deveriam viver assim, alegres, pois a felicidade é um estado natural da pessoa. Quem demonstra alegria recebe alegria de volta. O mesmo vale para outros sentimentos positivos, como gratidão e satisfação. De fato, o indivíduo que é incumbido de uma tarefa e se entrega a ela de corpo e alma vai desfrutar o trabalho no começo, meio e fim. Um outro, que realiza sua tarefa acabrunhado, pode até obter o mesmo resultado material, mas sem aproveitar o prazer de executar. Cumprir as obrigações é dever de cada um. Mas fazer mais e melhor é opção pessoal. Não importa apenas o destino: vale também o itinerário. Nas relações humanas, é fundamental ter em mente que o egoísmo divide e a vaidade aprisiona. Ao contrário, a solidariedade integra e a simplicidade encanta.

Convidei meu amigo para entrar na minha loja. Tinha acabado de inaugurar o Sebo cultural, e ele recusou com um argumento surpreendente: “Sebo só tem coisa velha”. Havia uma dose de decepção nas suas palavras, como se o antigo fosse sinônimo de deprimente e a necessidade do novo emergisse como uma solução indispensável. Tentei explicar que havia livros, discos, nomes sagrados da música e da literatura, tudo a preço bastante atrativo. Mas ele não entendeu. Despedimo-nos; recusou até o cafezinho com biscoitos. Pensei: “Somos vendedores de arte e cultura em todos os aspectos”, e naquele momento, se eu fosse um vendedor de lenços, teria vendido para meu amigo, tamanhas foram suas reclamações sobre a crise atual!

Percebi que aquele encontro foi significativo para a compreensão de mais um aspecto do comportamento humano. Meu amigo quis saber o segredo da felicidade, mas não foi capaz de entender um gosto simples, tão simples como o cantar de um pássaro e o voo de uma borboleta e nem percebeu que estávamos ao lado de um frondoso pé de palmeira. Ele não era obrigado a compartilhar do gosto pelos sebos. Bastava apenas que entendesse como alguém que, não sabendo nem querendo bordar, aprecia o trabalho artesanal. E é assim. As pessoas vivem atrás da felicidade, mas imaginam que ela esteja num lugar onde a presença humana não é possível. Pena que essa seja uma armadilha na qual (quase) todos estamos sujeitos a cair.

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